terça-feira, 1 de março de 2011

A lenda da pomba

É sábado, finalmente. Isso significa folga, nada de despertadores, trânsito ou Gilda. Gilda é a pessoa que me orienta na fábrica. Me ensina muito, principalmente a odiá-la. E como odeio. Acabei de acordar, ainda tô deitado na minha caminha, planejando o dia. O bom de ser solteiro é isso: você se planeja, faz as coisas ao seu ritmo. Sei que isso enjoa uma hora, mas agora eu estou bem com a vidinha.

Napoleão acabou de pular na cama, tá lambendo toda a minha cara. Acho que essa parada de odiar despertadores só atrai eles pra minha vida. De um jeito ou de outro. Quando Napô começa a me lamber é como se ele quisesse falar: “Anda logo seu bundão. Levanta e vai viver!”. Recebo bem a mensagem subliminar e obedeço. Vou abrir a janela. Merda! Tá chovendo horrores! E agora? Vou ter que passar o dia em casa, é o jeito. 24 horas, pelo menos, com a Bianquinha que eu amo mais me tira do sério. Até pela Gilda eu trocaria minha amada amiga nessa hora. Fazer o que né!?

O dia tá demorando pra passar! Tá chovendo até agora! Já tomamos café, já comemos o resto da pizza de ontem... já são 14 horas! Essa é a pior hora. Passa nada interessante na TV. Internet já enjoou. Bianca deita no outro sofá, eu tô debruçado na poltrona. Napô acaba de chegar, deitando na barriga da mamãe. Com ela o cachorro nem mexe. Isso não me agrada. É ela que Napô deveria acordar todo dia com o beijo de amor.

- Dia chatinho né Ti! - Bianca fala pra puxar assunto. OK. Vamos dialogar!

- Bota chato nisso Bibi. Babou todos os meus planos...

- Que bad... o pior é que o fim de semana vai ser todo chuvoso, deu na previsão.

- Au! Au au au au! - Napô late, só não sei se é de alegria ou raiva. Nem importo. A síndica que venha e leve ele embora. Seria um, favor pro meu sonho saturnino.

- Droga viu. - eu falo – Pior que essas vão ser as horas mais desperdiçadas da minha vida... só planejo ficar nessa poltrona desmanchando feito gelatina no Sol.

- Eu também tô sem nada pra fazer. Você podia me contar uma história! Please!!! - eu tô rindo muito depois de ouvir o que ela disse. Só respondo:

- Você deve estar louca! Você é que sabe um monte de história!

- Nossa, que maldade! Só queria ouvir uma historinha Ti! Mas tudo bem, vou te contar uma história que ouvi uma vez. É uma fáloba. - depois que ouço isso, caí desesperadamente na risada.

- Uma fáloba Bianca? O que é uma fáloba?

- Ai burro, é aquelas histórias que tem moral depois. So moron!

- Ah tá, você vai me contar uma FÁBULA... ok, pode contar.

- Mas não me atrapalha heim!

- Tá bom... me acorda quando acabar. - uma almofada acaba de acertar minha cabeça. É um aviso: é melhor ficar acordado.

A fábula que ela me conta é louca. É psicodélica. Escrevo em resumo o que ela disse. Assim que ela falou “moral da história” eu já caí no sono e só acordei de noite, pra assistir a maratona de filme. Mesmo assim, a fáloba, como ela diz, é moralizante. Leia:

A pomba

Vivia em uma fazenda uma família de pombas. Era uma família completa, com primos, o grande avô, os netos, os cunhados, os agregados... você já sabe... Pombas adoram estar unidas. Como você também já deve saber, pombas adoram se relacionar cedo demais. Pelo menos pra gente, elas são cada vez mais precoces. Do grupo de adolescentes da família, todas as pombas já namoravam outros pombos, exceto uma. Seu nome era Daysi. Ela simplesmente não namorava. Você já sabe que pomba só namora quando se interessa. Logo, Daysi não se interessava por pombos. Um dia, Daysi voava tranquilamente, toda pomposa, como você sabe, e avistou um pinto todo cheio de penujas esquisitas, indefinidas. Aquilo não era pena. Daysi, como você, sabia que o que cobria o pinto não eram penas. Mas o esquisito é que Daysi sentiu algo por aquele pinto. Aquele infeliz que não voava, que era tão pequeno frente à nutrida pomba, conquistou a Daysi. O coração dela batia forte. Os sacos aéreos enchiam e não queriam esvaziar, como você sabe. O pinto também começou a gostar da pomba. Quando a via, suada por voar tanto, ficava em sua melhor postura. Até parecia maior e mais inchado frente à pomba, como você sabe. Começaram a namorar. A família de Daysi descobriu, e a baniu do grupo. Daysi era diferente. Desolada, sem saber para onde ir, Daysi correu para o pinto, que a apresentou para sua família. Todos a aceitaram como se a mesma já fosse da família. O pai do pinto era um urubu rei. A mãe, uma galinha, como você sabe. Ali Daysi e o pinto viveram seus dias felizes, amando um ao outro e aos filhos, que vieram aos montes, até envelhecer, quando Dayse se encheu de pelancas e regiões frouxas e o pinto ficou corcunda, com a cara sempre voltada pra baixo, à altura dos frígidos joelhos, como você sabe. Enquanto isso, a família de pombas continua na mesma, como você já deve saber.

Moral da história: Você sabe muito sobre pombas, inclusive que elas combinam com pintos.

P.S.: Ser diferente não é uma escolha. Ser feliz, por outro lado, sim.

Desconfio de que Bianca tenha inventado essa história enquanto estava mergulhada na névoa do seu quarto, para que me passasse uma lição de moral, pra quando eu começar a enjoar de fazer meus planos sozinho. Um dia a gente descobre. Tchau tchau!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Napoleão aparece

O dia naquele inferno de fábrica foi cansativo. Tô exausto, me arrastando. Tô fedendo, tô desanimado, quero fazer cocô. Não dá pra cagar naquele lugar. Não me sinto bem. O pior é que meu sexto sentido acendeu a luzinha roxa. Isso significa que a madame aprontou alguma, e foi uma das péssimas.

Tenho isso do sexto sentido bem desenvolvido, quando o assunto é Bianca. A cada centímetro que o elevador sobe, meu coração aperta. Imagina só, você num elevador, esperando chegar em casa, rezando pra que pelo menos o vaso sanitário esteja inteiro pra você evacuar o bolo sólido e de mau cheiro que se acumula na região abdominal. É torturante, acredite em mim. O coração tá acelerado. Desejava não conhecer a lei da relatividade agora, mas felizmente o sexto andar chegou.

É estranho ter o corredor normal. Tá calmo, cheiroso até. A porta do apartamento tá normal. E trancada! Assim que abro, me deparo com uma sala mais arrumadinha. Ainda bem que existem as diaristas. Daqui a pouco eu volto pra desarrumar tudo. Nesse caso o furacão sou eu: nada fica arrumado quando o senhor Tiago está por perto. Agora tô ouvindo uns gemidos, uns uivos. Pronto, mais uma vez o Sensor Bianca funcionou. O que será que ela arrumou agora? Sento no sofá e enumero as possibilidades:

1 – Bianca trouxe um homem pra casa. Não, os gemidos são mais pra de mulher. Então vamos pra hipótese 2:

2 – Bianca trouxe uma mulher pra casa. Muito possível. Mas o que estaria Bianca fazendo com esta mulher pra ela estar gemendo e uivando desse jeito? Hipóteses:

    1. - Bianca está massageando os pés da mulher

    2. - Bianca está chupando aquilo da mulher

    3. - Bianca está chupando outro aquilo da mulher

    4. - Bianca está chupando aquele outro aquilo da mulher

    5. - Bianca está inserindo aquela coisa naquilo da mulher

Frente às várias hipóteses, resolvo ir até o banheiro, de onde o som tá vindo. Me aproximo devagar, com medo do que vou ver. Quando abro a porta, tenho uma frustração e um impacto. Nenhuma das minhas hipóteses eram reais. Nada de mulher, de aquilo ou aquela coisa. Até a vontade de defecar passou. Não quero acreditar no que vejo, mas como ignorar? A maluca está dando banho, usando meu shampoo e até um sabonete novinho em um filhote de cachorro, magrelo e feio. Ela apenas olha pra mim e ri. Pergunto, atônito:

- Sua louca, o que é isso? Onde você arranjou esse animal?

- Ai Ti, coitado. Eu estava voltando do trabalho quando ele começou a me seguir. Era de rua, estava abandonado. Faz dias que ele me segue. Daí fiquei com dó e peguei ele pra criar. O que você acha?

- Doida, como você pega um cachorro de rua e trás pra cá? É proibido ter animal nesse prédio!

- Nossa que crueldade Tiago, eu peguei porque ele precisava de ajuda uai! Imagina se eu deixo ele na rua, ia morrer sujo e de fome! - o cão continua gemendo, mais baixinho.

- Ah tá bom! Daí você teve a incrível ideia de trazer ele pra cá, usar meu shampoo, dar a nossa comida, e depois vai fazer o que? Jogar ele na rua, só que limpo e alimentado?

- Não né! Tava pensando da gente criar ele aqui, escondido da Rosângela! - Rosângela era a síndica do prédio. A gente não gosta dela. Eu particularmente não gosto de nenhuma Rosângela. Nunca tive sorte com elas. A primeira que conheci arrancou meu prepúcio.

- Bianca, se ela descobre a gente é expulso! Como é que a gente vai criar esse cãozinho aqui? Não tem jeito!

- Olha o tamanho do apartamento! Cabe ele aqui! Tiaguinho, meu amorzinho lindo, deixa eu ficar com ele! - nesse momento olho pro cão. Ele me encara, faz aquela cara de piedade que eles sabem fazer muito bem. Napoleão. Esse nome vem na minha cabeça.

- Napoleão. - falo apenas isso.

- O quê? Não entendi.

- Napoleão. Se você deixar eu chamar ele de Napoleão, ele pode ficar.

- Ai que amor! Você pode chamar ele do que quiser! A gente oculta ele da Rosângela.

- Tá bom. Deixa eu te ajudar aí. - me viro pro cachorrinho e falo – Oi Napoleão! Bem vindo a essa vida maluca! Essa mãe doida e esse pai impotente! - olho Napoleão com mais carinho. Ele é lindo, com uma pelagem caramelo, orelhas grandes. Muito fofo!

Assim Napoleão passou a fazer parte da nossa vida. Bianca mais uma vez me apronta uma. Não resisti ao jeitinho que ela me chamou. É sempre assim. Cedi logo. Mas vale a pena, nunca tive um cão antes. Se a Rosângela apelar, a gente se muda.

Acabei de ter uma lição. Sabe aquela coisa de se aprender com erros? Pois é, aprendi a considerar adoção de cães moribundos às possibilidades de origem de gemidos. Cometi um erro de omissão na hora que fiz as hipóteses lá de cima. De certa forma, pode me ajudar no trabalho. Agora a barriga já não aguenta mais. Bianca está lá no quarto secando o cão com o secador, então, se me dão licença, preciso fazer o número 2, que já tá batendo na porta. Até mais!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A vida ao lado dela–Quem é ela, quem sou eu

 

Adoro quando o despertador toca. Essa é a maior mentira que já disse em toda minha vida. E o coitado não tem culpa, eu tenho. Uma vez tocado, é hora de levantar. São 6 horas da manhã e tenho a maior missão do dia (geralmente é a maior missão da maior parte do ano): acordar a Bianca.

Bianca e eu dividimos o apartamento há 3 meses, mas ela já está na minha vida a um tempo bem maior. Diria eu uns 8 anos. Assim que nos conhecemos foi amor a primeira vista, mas não foi aquele amor. Foi esse amor mais morno sabe, aquele amor de irmão pra irmão. Fraterno, essa é a palavra. Então, agora ela e eu estamos aqui, nessa cidade estranha, longe de casa, dos pais, da pacatez. Eu chamaria isso de liberdade, mas não há liberdade entre aqueles que se amam. Dos dois jeitos é claro, do jeito morno e do jeito quente.

Merda, pior que despertador em hora inconveniente é andar no escuro. Eu sabia que deveria ter comprado aquele abajur. O interruptor tá no outro lado do quarto, preciso dar um jeito. Fazer o que, o jeito é ir até lá. Pronto, e fez-se a luz. Que zona! Melhor deixar escuro, daí não vejo bagunça. Muito bem, então vamos à missão. Depois de acordar a bela adormecida, preciso ligar pra diarista. Isso aqui tá um chiqueiro.

A porta do quarto da Bianca é muito esquisita. Nesse caso, a capa resume bem o livro. Felizmente ela deixou destrancada. Credo, ela fumou aqui com a janela fechada: tem neblina no quarto todo. Ali está a moça, toda folgadona. Pelo menos ela não tá pelada. OK. Preparar, aproximar, fogo. Toco ela de mansinho, mas pelo jeito ela nem sentiu. Sou um pouco mais feroz, bem pouquinho mesmo. Nada dela perceber. O jeito é apelar para a sabedoria ( se fosse ignorância não resolveria)... tomo ar e me aproximo do ouvido dela. Falo em tom normal:

- Bianca, acorda bem! - ela se move um pouquinho.

- Biancaaa, você tem que trabalhar! Levanta! - ela abre os olhos.

- Maninha, acabaram de proibir o cigarro no Brasil. - é fantástico como isso funciona. Ela levanta irada, sonolenta, surpresa, e olha pra mim. Abre a boca, faz um bocejo bem longo e finalmente fala:

- Nossa, essa é velha hein. At least it works. Bom dia amorzinho. Vamos lá,eu faço o café. - Ela vive falando metade das frases em inglês. Tô falando, ela não é normal! Bianca caminha então para a cozinha. Falo que vou tomar um banho, e vou. Não sou desses que falam uma coisa e faz outra. Por hora.

Entro no banho. É no banho que tenho a maioria de insights. Acabei de ter um, e já peço desculpas. Não me apresentei. Sou Tiago. Sou o que eles chamam de rapaz jovem. Politicamente correto aos olhos da sociedade, como se isso valesse algo: não fumo, bebo ocasionalmente, (…) peido no banheiro, lavo as mãos antes e depois de mijar. As reticências foram necessárias. Você já viu a lista de coisas que a gente tem que ser pra ganhar o tag “politicamente correto”? Acho que levaria dois dias pra repassar todos os requisitos. Enfim, não temo nem devo nada a isso aí. Na verdade sou um pouquinho gauche. Faço sim minhas travessuras, já experimentei muita coisa por aí, e o pior de tudo: moro com a Bianca. Mas no geral sou do bem galera.

Trabalho numa fábrica. Na verdade sou engenheiro trainee em uma indústria do ramo de celulose e papel. É assim que eles fazem questão que eu diga. Observe que a primeira frase economiza energia, de forma geral, e transmite objetivamente a mesma informação. Por isso que digo: quer promover a sustentabilidade? Comece pelo que você diz!

Nos bons dias livres, gosto de assistir séries, ler, tricotar (sim, tri-co-tar, com lã e agulhas) e cozinhar. Quando tenho a sorte de ter a maluca da Bianca ao meu lado, saímos, badalamos e aprontamos as nossas. - que saco! Acabou o sabonete no meio do banho... agora eu termino só na água. - mas voltando a falar sobre mim, só posso dizer que minha vida está entrelaçadíssima com a da Bianca. Isso porque só fazem três meses que estamos morando juntos. Não preveja casamento, isso é impossível, mas preveja muita, mas muita boa história pra contar! - muito bem, a pele negra está limpa (ou metade dela, vai saber), os cabelos crespos estão secos 24 horas, no oceano ou no deserto, e os dentes estão brilhantes. Hora de comer, despedir, viver a outra vida. Por princípio, deixo de ser engenheiro quando entro em casa. É isso!