É sábado, finalmente. Isso significa folga, nada de despertadores, trânsito ou Gilda. Gilda é a pessoa que me orienta na fábrica. Me ensina muito, principalmente a odiá-la. E como odeio. Acabei de acordar, ainda tô deitado na minha caminha, planejando o dia. O bom de ser solteiro é isso: você se planeja, faz as coisas ao seu ritmo. Sei que isso enjoa uma hora, mas agora eu estou bem com a vidinha.
Napoleão acabou de pular na cama, tá lambendo toda a minha cara. Acho que essa parada de odiar despertadores só atrai eles pra minha vida. De um jeito ou de outro. Quando Napô começa a me lamber é como se ele quisesse falar: “Anda logo seu bundão. Levanta e vai viver!”. Recebo bem a mensagem subliminar e obedeço. Vou abrir a janela. Merda! Tá chovendo horrores! E agora? Vou ter que passar o dia em casa, é o jeito. 24 horas, pelo menos, com a Bianquinha que eu amo mais me tira do sério. Até pela Gilda eu trocaria minha amada amiga nessa hora. Fazer o que né!?
O dia tá demorando pra passar! Tá chovendo até agora! Já tomamos café, já comemos o resto da pizza de ontem... já são 14 horas! Essa é a pior hora. Passa nada interessante na TV. Internet já enjoou. Bianca deita no outro sofá, eu tô debruçado na poltrona. Napô acaba de chegar, deitando na barriga da mamãe. Com ela o cachorro nem mexe. Isso não me agrada. É ela que Napô deveria acordar todo dia com o beijo de amor.
- Dia chatinho né Ti! - Bianca fala pra puxar assunto. OK. Vamos dialogar!
- Bota chato nisso Bibi. Babou todos os meus planos...
- Que bad... o pior é que o fim de semana vai ser todo chuvoso, deu na previsão.
- Au! Au au au au! - Napô late, só não sei se é de alegria ou raiva. Nem importo. A síndica que venha e leve ele embora. Seria um, favor pro meu sonho saturnino.
- Droga viu. - eu falo – Pior que essas vão ser as horas mais desperdiçadas da minha vida... só planejo ficar nessa poltrona desmanchando feito gelatina no Sol.
- Eu também tô sem nada pra fazer. Você podia me contar uma história! Please!!! - eu tô rindo muito depois de ouvir o que ela disse. Só respondo:
- Você deve estar louca! Você é que sabe um monte de história!
- Nossa, que maldade! Só queria ouvir uma historinha Ti! Mas tudo bem, vou te contar uma história que ouvi uma vez. É uma fáloba. - depois que ouço isso, caí desesperadamente na risada.
- Uma fáloba Bianca? O que é uma fáloba?
- Ai burro, é aquelas histórias que tem moral depois. So moron!
- Ah tá, você vai me contar uma FÁBULA... ok, pode contar.
- Mas não me atrapalha heim!
- Tá bom... me acorda quando acabar. - uma almofada acaba de acertar minha cabeça. É um aviso: é melhor ficar acordado.
A fábula que ela me conta é louca. É psicodélica. Escrevo em resumo o que ela disse. Assim que ela falou “moral da história” eu já caí no sono e só acordei de noite, pra assistir a maratona de filme. Mesmo assim, a fáloba, como ela diz, é moralizante. Leia:
A pomba
Vivia em uma fazenda uma família de pombas. Era uma família completa, com primos, o grande avô, os netos, os cunhados, os agregados... você já sabe... Pombas adoram estar unidas. Como você também já deve saber, pombas adoram se relacionar cedo demais. Pelo menos pra gente, elas são cada vez mais precoces. Do grupo de adolescentes da família, todas as pombas já namoravam outros pombos, exceto uma. Seu nome era Daysi. Ela simplesmente não namorava. Você já sabe que pomba só namora quando se interessa. Logo, Daysi não se interessava por pombos. Um dia, Daysi voava tranquilamente, toda pomposa, como você sabe, e avistou um pinto todo cheio de penujas esquisitas, indefinidas. Aquilo não era pena. Daysi, como você, sabia que o que cobria o pinto não eram penas. Mas o esquisito é que Daysi sentiu algo por aquele pinto. Aquele infeliz que não voava, que era tão pequeno frente à nutrida pomba, conquistou a Daysi. O coração dela batia forte. Os sacos aéreos enchiam e não queriam esvaziar, como você sabe. O pinto também começou a gostar da pomba. Quando a via, suada por voar tanto, ficava em sua melhor postura. Até parecia maior e mais inchado frente à pomba, como você sabe. Começaram a namorar. A família de Daysi descobriu, e a baniu do grupo. Daysi era diferente. Desolada, sem saber para onde ir, Daysi correu para o pinto, que a apresentou para sua família. Todos a aceitaram como se a mesma já fosse da família. O pai do pinto era um urubu rei. A mãe, uma galinha, como você sabe. Ali Daysi e o pinto viveram seus dias felizes, amando um ao outro e aos filhos, que vieram aos montes, até envelhecer, quando Dayse se encheu de pelancas e regiões frouxas e o pinto ficou corcunda, com a cara sempre voltada pra baixo, à altura dos frígidos joelhos, como você sabe. Enquanto isso, a família de pombas continua na mesma, como você já deve saber.
Moral da história: Você sabe muito sobre pombas, inclusive que elas combinam com pintos.
P.S.: Ser diferente não é uma escolha. Ser feliz, por outro lado, sim.
Desconfio de que Bianca tenha inventado essa história enquanto estava mergulhada na névoa do seu quarto, para que me passasse uma lição de moral, pra quando eu começar a enjoar de fazer meus planos sozinho. Um dia a gente descobre. Tchau tchau!