Adoro quando o despertador toca. Essa é a maior mentira que já disse em toda minha vida. E o coitado não tem culpa, eu tenho. Uma vez tocado, é hora de levantar. São 6 horas da manhã e tenho a maior missão do dia (geralmente é a maior missão da maior parte do ano): acordar a Bianca.
Bianca e eu dividimos o apartamento há 3 meses, mas ela já está na minha vida a um tempo bem maior. Diria eu uns 8 anos. Assim que nos conhecemos foi amor a primeira vista, mas não foi aquele amor. Foi esse amor mais morno sabe, aquele amor de irmão pra irmão. Fraterno, essa é a palavra. Então, agora ela e eu estamos aqui, nessa cidade estranha, longe de casa, dos pais, da pacatez. Eu chamaria isso de liberdade, mas não há liberdade entre aqueles que se amam. Dos dois jeitos é claro, do jeito morno e do jeito quente.
Merda, pior que despertador em hora inconveniente é andar no escuro. Eu sabia que deveria ter comprado aquele abajur. O interruptor tá no outro lado do quarto, preciso dar um jeito. Fazer o que, o jeito é ir até lá. Pronto, e fez-se a luz. Que zona! Melhor deixar escuro, daí não vejo bagunça. Muito bem, então vamos à missão. Depois de acordar a bela adormecida, preciso ligar pra diarista. Isso aqui tá um chiqueiro.
A porta do quarto da Bianca é muito esquisita. Nesse caso, a capa resume bem o livro. Felizmente ela deixou destrancada. Credo, ela fumou aqui com a janela fechada: tem neblina no quarto todo. Ali está a moça, toda folgadona. Pelo menos ela não tá pelada. OK. Preparar, aproximar, fogo. Toco ela de mansinho, mas pelo jeito ela nem sentiu. Sou um pouco mais feroz, bem pouquinho mesmo. Nada dela perceber. O jeito é apelar para a sabedoria ( se fosse ignorância não resolveria)... tomo ar e me aproximo do ouvido dela. Falo em tom normal:
- Bianca, acorda bem! - ela se move um pouquinho.
- Biancaaa, você tem que trabalhar! Levanta! - ela abre os olhos.
- Maninha, acabaram de proibir o cigarro no Brasil. - é fantástico como isso funciona. Ela levanta irada, sonolenta, surpresa, e olha pra mim. Abre a boca, faz um bocejo bem longo e finalmente fala:
- Nossa, essa é velha hein. At least it works. Bom dia amorzinho. Vamos lá,eu faço o café. - Ela vive falando metade das frases em inglês. Tô falando, ela não é normal! Bianca caminha então para a cozinha. Falo que vou tomar um banho, e vou. Não sou desses que falam uma coisa e faz outra. Por hora.
Entro no banho. É no banho que tenho a maioria de insights. Acabei de ter um, e já peço desculpas. Não me apresentei. Sou Tiago. Sou o que eles chamam de rapaz jovem. Politicamente correto aos olhos da sociedade, como se isso valesse algo: não fumo, bebo ocasionalmente, (…) peido no banheiro, lavo as mãos antes e depois de mijar. As reticências foram necessárias. Você já viu a lista de coisas que a gente tem que ser pra ganhar o tag “politicamente correto”? Acho que levaria dois dias pra repassar todos os requisitos. Enfim, não temo nem devo nada a isso aí. Na verdade sou um pouquinho gauche. Faço sim minhas travessuras, já experimentei muita coisa por aí, e o pior de tudo: moro com a Bianca. Mas no geral sou do bem galera.
Trabalho numa fábrica. Na verdade sou engenheiro trainee em uma indústria do ramo de celulose e papel. É assim que eles fazem questão que eu diga. Observe que a primeira frase economiza energia, de forma geral, e transmite objetivamente a mesma informação. Por isso que digo: quer promover a sustentabilidade? Comece pelo que você diz!
Nos bons dias livres, gosto de assistir séries, ler, tricotar (sim, tri-co-tar, com lã e agulhas) e cozinhar. Quando tenho a sorte de ter a maluca da Bianca ao meu lado, saímos, badalamos e aprontamos as nossas. - que saco! Acabou o sabonete no meio do banho... agora eu termino só na água. - mas voltando a falar sobre mim, só posso dizer que minha vida está entrelaçadíssima com a da Bianca. Isso porque só fazem três meses que estamos morando juntos. Não preveja casamento, isso é impossível, mas preveja muita, mas muita boa história pra contar! - muito bem, a pele negra está limpa (ou metade dela, vai saber), os cabelos crespos estão secos 24 horas, no oceano ou no deserto, e os dentes estão brilhantes. Hora de comer, despedir, viver a outra vida. Por princípio, deixo de ser engenheiro quando entro em casa. É isso!
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