segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Napoleão aparece

O dia naquele inferno de fábrica foi cansativo. Tô exausto, me arrastando. Tô fedendo, tô desanimado, quero fazer cocô. Não dá pra cagar naquele lugar. Não me sinto bem. O pior é que meu sexto sentido acendeu a luzinha roxa. Isso significa que a madame aprontou alguma, e foi uma das péssimas.

Tenho isso do sexto sentido bem desenvolvido, quando o assunto é Bianca. A cada centímetro que o elevador sobe, meu coração aperta. Imagina só, você num elevador, esperando chegar em casa, rezando pra que pelo menos o vaso sanitário esteja inteiro pra você evacuar o bolo sólido e de mau cheiro que se acumula na região abdominal. É torturante, acredite em mim. O coração tá acelerado. Desejava não conhecer a lei da relatividade agora, mas felizmente o sexto andar chegou.

É estranho ter o corredor normal. Tá calmo, cheiroso até. A porta do apartamento tá normal. E trancada! Assim que abro, me deparo com uma sala mais arrumadinha. Ainda bem que existem as diaristas. Daqui a pouco eu volto pra desarrumar tudo. Nesse caso o furacão sou eu: nada fica arrumado quando o senhor Tiago está por perto. Agora tô ouvindo uns gemidos, uns uivos. Pronto, mais uma vez o Sensor Bianca funcionou. O que será que ela arrumou agora? Sento no sofá e enumero as possibilidades:

1 – Bianca trouxe um homem pra casa. Não, os gemidos são mais pra de mulher. Então vamos pra hipótese 2:

2 – Bianca trouxe uma mulher pra casa. Muito possível. Mas o que estaria Bianca fazendo com esta mulher pra ela estar gemendo e uivando desse jeito? Hipóteses:

    1. - Bianca está massageando os pés da mulher

    2. - Bianca está chupando aquilo da mulher

    3. - Bianca está chupando outro aquilo da mulher

    4. - Bianca está chupando aquele outro aquilo da mulher

    5. - Bianca está inserindo aquela coisa naquilo da mulher

Frente às várias hipóteses, resolvo ir até o banheiro, de onde o som tá vindo. Me aproximo devagar, com medo do que vou ver. Quando abro a porta, tenho uma frustração e um impacto. Nenhuma das minhas hipóteses eram reais. Nada de mulher, de aquilo ou aquela coisa. Até a vontade de defecar passou. Não quero acreditar no que vejo, mas como ignorar? A maluca está dando banho, usando meu shampoo e até um sabonete novinho em um filhote de cachorro, magrelo e feio. Ela apenas olha pra mim e ri. Pergunto, atônito:

- Sua louca, o que é isso? Onde você arranjou esse animal?

- Ai Ti, coitado. Eu estava voltando do trabalho quando ele começou a me seguir. Era de rua, estava abandonado. Faz dias que ele me segue. Daí fiquei com dó e peguei ele pra criar. O que você acha?

- Doida, como você pega um cachorro de rua e trás pra cá? É proibido ter animal nesse prédio!

- Nossa que crueldade Tiago, eu peguei porque ele precisava de ajuda uai! Imagina se eu deixo ele na rua, ia morrer sujo e de fome! - o cão continua gemendo, mais baixinho.

- Ah tá bom! Daí você teve a incrível ideia de trazer ele pra cá, usar meu shampoo, dar a nossa comida, e depois vai fazer o que? Jogar ele na rua, só que limpo e alimentado?

- Não né! Tava pensando da gente criar ele aqui, escondido da Rosângela! - Rosângela era a síndica do prédio. A gente não gosta dela. Eu particularmente não gosto de nenhuma Rosângela. Nunca tive sorte com elas. A primeira que conheci arrancou meu prepúcio.

- Bianca, se ela descobre a gente é expulso! Como é que a gente vai criar esse cãozinho aqui? Não tem jeito!

- Olha o tamanho do apartamento! Cabe ele aqui! Tiaguinho, meu amorzinho lindo, deixa eu ficar com ele! - nesse momento olho pro cão. Ele me encara, faz aquela cara de piedade que eles sabem fazer muito bem. Napoleão. Esse nome vem na minha cabeça.

- Napoleão. - falo apenas isso.

- O quê? Não entendi.

- Napoleão. Se você deixar eu chamar ele de Napoleão, ele pode ficar.

- Ai que amor! Você pode chamar ele do que quiser! A gente oculta ele da Rosângela.

- Tá bom. Deixa eu te ajudar aí. - me viro pro cachorrinho e falo – Oi Napoleão! Bem vindo a essa vida maluca! Essa mãe doida e esse pai impotente! - olho Napoleão com mais carinho. Ele é lindo, com uma pelagem caramelo, orelhas grandes. Muito fofo!

Assim Napoleão passou a fazer parte da nossa vida. Bianca mais uma vez me apronta uma. Não resisti ao jeitinho que ela me chamou. É sempre assim. Cedi logo. Mas vale a pena, nunca tive um cão antes. Se a Rosângela apelar, a gente se muda.

Acabei de ter uma lição. Sabe aquela coisa de se aprender com erros? Pois é, aprendi a considerar adoção de cães moribundos às possibilidades de origem de gemidos. Cometi um erro de omissão na hora que fiz as hipóteses lá de cima. De certa forma, pode me ajudar no trabalho. Agora a barriga já não aguenta mais. Bianca está lá no quarto secando o cão com o secador, então, se me dão licença, preciso fazer o número 2, que já tá batendo na porta. Até mais!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A vida ao lado dela–Quem é ela, quem sou eu

 

Adoro quando o despertador toca. Essa é a maior mentira que já disse em toda minha vida. E o coitado não tem culpa, eu tenho. Uma vez tocado, é hora de levantar. São 6 horas da manhã e tenho a maior missão do dia (geralmente é a maior missão da maior parte do ano): acordar a Bianca.

Bianca e eu dividimos o apartamento há 3 meses, mas ela já está na minha vida a um tempo bem maior. Diria eu uns 8 anos. Assim que nos conhecemos foi amor a primeira vista, mas não foi aquele amor. Foi esse amor mais morno sabe, aquele amor de irmão pra irmão. Fraterno, essa é a palavra. Então, agora ela e eu estamos aqui, nessa cidade estranha, longe de casa, dos pais, da pacatez. Eu chamaria isso de liberdade, mas não há liberdade entre aqueles que se amam. Dos dois jeitos é claro, do jeito morno e do jeito quente.

Merda, pior que despertador em hora inconveniente é andar no escuro. Eu sabia que deveria ter comprado aquele abajur. O interruptor tá no outro lado do quarto, preciso dar um jeito. Fazer o que, o jeito é ir até lá. Pronto, e fez-se a luz. Que zona! Melhor deixar escuro, daí não vejo bagunça. Muito bem, então vamos à missão. Depois de acordar a bela adormecida, preciso ligar pra diarista. Isso aqui tá um chiqueiro.

A porta do quarto da Bianca é muito esquisita. Nesse caso, a capa resume bem o livro. Felizmente ela deixou destrancada. Credo, ela fumou aqui com a janela fechada: tem neblina no quarto todo. Ali está a moça, toda folgadona. Pelo menos ela não tá pelada. OK. Preparar, aproximar, fogo. Toco ela de mansinho, mas pelo jeito ela nem sentiu. Sou um pouco mais feroz, bem pouquinho mesmo. Nada dela perceber. O jeito é apelar para a sabedoria ( se fosse ignorância não resolveria)... tomo ar e me aproximo do ouvido dela. Falo em tom normal:

- Bianca, acorda bem! - ela se move um pouquinho.

- Biancaaa, você tem que trabalhar! Levanta! - ela abre os olhos.

- Maninha, acabaram de proibir o cigarro no Brasil. - é fantástico como isso funciona. Ela levanta irada, sonolenta, surpresa, e olha pra mim. Abre a boca, faz um bocejo bem longo e finalmente fala:

- Nossa, essa é velha hein. At least it works. Bom dia amorzinho. Vamos lá,eu faço o café. - Ela vive falando metade das frases em inglês. Tô falando, ela não é normal! Bianca caminha então para a cozinha. Falo que vou tomar um banho, e vou. Não sou desses que falam uma coisa e faz outra. Por hora.

Entro no banho. É no banho que tenho a maioria de insights. Acabei de ter um, e já peço desculpas. Não me apresentei. Sou Tiago. Sou o que eles chamam de rapaz jovem. Politicamente correto aos olhos da sociedade, como se isso valesse algo: não fumo, bebo ocasionalmente, (…) peido no banheiro, lavo as mãos antes e depois de mijar. As reticências foram necessárias. Você já viu a lista de coisas que a gente tem que ser pra ganhar o tag “politicamente correto”? Acho que levaria dois dias pra repassar todos os requisitos. Enfim, não temo nem devo nada a isso aí. Na verdade sou um pouquinho gauche. Faço sim minhas travessuras, já experimentei muita coisa por aí, e o pior de tudo: moro com a Bianca. Mas no geral sou do bem galera.

Trabalho numa fábrica. Na verdade sou engenheiro trainee em uma indústria do ramo de celulose e papel. É assim que eles fazem questão que eu diga. Observe que a primeira frase economiza energia, de forma geral, e transmite objetivamente a mesma informação. Por isso que digo: quer promover a sustentabilidade? Comece pelo que você diz!

Nos bons dias livres, gosto de assistir séries, ler, tricotar (sim, tri-co-tar, com lã e agulhas) e cozinhar. Quando tenho a sorte de ter a maluca da Bianca ao meu lado, saímos, badalamos e aprontamos as nossas. - que saco! Acabou o sabonete no meio do banho... agora eu termino só na água. - mas voltando a falar sobre mim, só posso dizer que minha vida está entrelaçadíssima com a da Bianca. Isso porque só fazem três meses que estamos morando juntos. Não preveja casamento, isso é impossível, mas preveja muita, mas muita boa história pra contar! - muito bem, a pele negra está limpa (ou metade dela, vai saber), os cabelos crespos estão secos 24 horas, no oceano ou no deserto, e os dentes estão brilhantes. Hora de comer, despedir, viver a outra vida. Por princípio, deixo de ser engenheiro quando entro em casa. É isso!