O dia naquele inferno de fábrica foi cansativo. Tô exausto, me arrastando. Tô fedendo, tô desanimado, quero fazer cocô. Não dá pra cagar naquele lugar. Não me sinto bem. O pior é que meu sexto sentido acendeu a luzinha roxa. Isso significa que a madame aprontou alguma, e foi uma das péssimas.
Tenho isso do sexto sentido bem desenvolvido, quando o assunto é Bianca. A cada centímetro que o elevador sobe, meu coração aperta. Imagina só, você num elevador, esperando chegar em casa, rezando pra que pelo menos o vaso sanitário esteja inteiro pra você evacuar o bolo sólido e de mau cheiro que se acumula na região abdominal. É torturante, acredite em mim. O coração tá acelerado. Desejava não conhecer a lei da relatividade agora, mas felizmente o sexto andar chegou.
É estranho ter o corredor normal. Tá calmo, cheiroso até. A porta do apartamento tá normal. E trancada! Assim que abro, me deparo com uma sala mais arrumadinha. Ainda bem que existem as diaristas. Daqui a pouco eu volto pra desarrumar tudo. Nesse caso o furacão sou eu: nada fica arrumado quando o senhor Tiago está por perto. Agora tô ouvindo uns gemidos, uns uivos. Pronto, mais uma vez o Sensor Bianca funcionou. O que será que ela arrumou agora? Sento no sofá e enumero as possibilidades:
1 – Bianca trouxe um homem pra casa. Não, os gemidos são mais pra de mulher. Então vamos pra hipótese 2:
2 – Bianca trouxe uma mulher pra casa. Muito possível. Mas o que estaria Bianca fazendo com esta mulher pra ela estar gemendo e uivando desse jeito? Hipóteses:
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- Bianca está massageando os pés da mulher
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- Bianca está chupando aquilo da mulher
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- Bianca está chupando outro aquilo da mulher
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- Bianca está chupando aquele outro aquilo da mulher
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- Bianca está inserindo aquela coisa naquilo da mulher
Frente às várias hipóteses, resolvo ir até o banheiro, de onde o som tá vindo. Me aproximo devagar, com medo do que vou ver. Quando abro a porta, tenho uma frustração e um impacto. Nenhuma das minhas hipóteses eram reais. Nada de mulher, de aquilo ou aquela coisa. Até a vontade de defecar passou. Não quero acreditar no que vejo, mas como ignorar? A maluca está dando banho, usando meu shampoo e até um sabonete novinho em um filhote de cachorro, magrelo e feio. Ela apenas olha pra mim e ri. Pergunto, atônito:
- Sua louca, o que é isso? Onde você arranjou esse animal?
- Ai Ti, coitado. Eu estava voltando do trabalho quando ele começou a me seguir. Era de rua, estava abandonado. Faz dias que ele me segue. Daí fiquei com dó e peguei ele pra criar. O que você acha?
- Doida, como você pega um cachorro de rua e trás pra cá? É proibido ter animal nesse prédio!
- Nossa que crueldade Tiago, eu peguei porque ele precisava de ajuda uai! Imagina se eu deixo ele na rua, ia morrer sujo e de fome! - o cão continua gemendo, mais baixinho.
- Ah tá bom! Daí você teve a incrível ideia de trazer ele pra cá, usar meu shampoo, dar a nossa comida, e depois vai fazer o que? Jogar ele na rua, só que limpo e alimentado?
- Não né! Tava pensando da gente criar ele aqui, escondido da Rosângela! - Rosângela era a síndica do prédio. A gente não gosta dela. Eu particularmente não gosto de nenhuma Rosângela. Nunca tive sorte com elas. A primeira que conheci arrancou meu prepúcio.
- Bianca, se ela descobre a gente é expulso! Como é que a gente vai criar esse cãozinho aqui? Não tem jeito!
- Olha o tamanho do apartamento! Cabe ele aqui! Tiaguinho, meu amorzinho lindo, deixa eu ficar com ele! - nesse momento olho pro cão. Ele me encara, faz aquela cara de piedade que eles sabem fazer muito bem. Napoleão. Esse nome vem na minha cabeça.
- Napoleão. - falo apenas isso.
- O quê? Não entendi.
- Napoleão. Se você deixar eu chamar ele de Napoleão, ele pode ficar.
- Ai que amor! Você pode chamar ele do que quiser! A gente oculta ele da Rosângela.
- Tá bom. Deixa eu te ajudar aí. - me viro pro cachorrinho e falo – Oi Napoleão! Bem vindo a essa vida maluca! Essa mãe doida e esse pai impotente! - olho Napoleão com mais carinho. Ele é lindo, com uma pelagem caramelo, orelhas grandes. Muito fofo!
Assim Napoleão passou a fazer parte da nossa vida. Bianca mais uma vez me apronta uma. Não resisti ao jeitinho que ela me chamou. É sempre assim. Cedi logo. Mas vale a pena, nunca tive um cão antes. Se a Rosângela apelar, a gente se muda.
Acabei de ter uma lição. Sabe aquela coisa de se aprender com erros? Pois é, aprendi a considerar adoção de cães moribundos às possibilidades de origem de gemidos. Cometi um erro de omissão na hora que fiz as hipóteses lá de cima. De certa forma, pode me ajudar no trabalho. Agora a barriga já não aguenta mais. Bianca está lá no quarto secando o cão com o secador, então, se me dão licença, preciso fazer o número 2, que já tá batendo na porta. Até mais!
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